por Bárbara Vasconcelos¹ e João Jales².
Mais uma vez vemos estudantes sofrendo agressões daqueles que deveriam zelar pela nossa segurança. Entender essa dinâmica não é fácil. Não para quem nasceu e se criou no berço da democracia. Ainda que com uma cultura política que precisa ser transformada, convenhamos: vivemos hoje os frutos colhidos de gerações que se desgastaram física e psicologicamente para que nossa geração usufruísse de nossos direitos. Entretanto há algo além da cultura política que precisa se transformar. E esses resquícios de ditadura nos cercam como se esperassem por um vacilo nosso para abocanharem novamente o poder e nos mostrar a que vieram.
A cultura de violência que os aparelhos repressores do Estado perpetuam no Brasil é o sinal que as mudanças ainda precisam ser feitas. Nossa geração, considerada mais libertina do que libertária, tem essa rotulação justamente para que se desqualifiquem nossos argumentos. Somos taxados de vândalos, baderneiros, maconheiros, marginais, não por acaso. Criminalizar a juventude sempre foi via de regra para a atuação dos aparelhos de repressão do Estado, e aplicação da violência para coerção faz parte dos mais antigos manuais militaristas.
Nosso momento de ascensão à uma “maturidade democrática” não combina mais com essa cultura de violência. Chegamos a um patamar de discussões em que a própria sociedade precisa intervir na formação e preparação daquele que quer te fazer sentir seguro, mas constrange e agride tanto quanto aquele de quem ele diz te proteger.
Quando isso passa por um Estado disposto a manter esse status quo de repressão, criminalização e marginalização da juventude encontram em São Paulo um prato cheio para se perpetuar. Encontra numa falsa idéia de segurança no campus da USP o suspiro que precisava pra se manter vivo. Encontra no governo estadual que executa suas ações o álibi que precisa para justificar sua truculência e acefalia. Onde não se consegue se resguardar, não importa: agride cegamente tal qual um cão acuado e raivoso, ciente que seu tempo está por se encerrar, mas “não antes da última mordida”.
O que pensar de um policial racista? Aliás… Racista, violento e abusivo?
Um estudante negro em meio a vários outros é alvo de questionamentos não feitos a qualquer outro presente no recinto – Diretório Central Estudantil – Algumas perguntas me tem sido recorrentes desde que vi as chamadas, a matéria, os comentários a cerca do ocorrido: esse policial nunca ouviu na vida dele que preconceito racial é crime? Ele não faz ideia da velocidade dos veículos de comunicação, incluindo redes sociais? Tem ele noção do abuso escancarado e transbordante que suas ações exibem? Ou ele confia demais na farda que usa? (essa última eu queria nem ter imaginado)
O fato é que muita coisa gira em torno de um acontecimento desse nível, ainda por cima quando é dentro de um espaço que serve (ou serviria) para preparar melhores cidadãos e partindo de um orgão público de segurança. Que segurança é essa que nos protege? Qual o entendimento que um indivíduo desses tem sobre cidadania?
Mais perguntas: que preparo esse ‘profissional’ tem pra lidar com situações de conflito? Quem prepara, prepara?
Claro que nenhum dos questionamentos justifica as atitudes preconceituosas dele, mas ainda assim, eles precisam ser lançados. Os estudantes que fizeram a gravação e que a publicaram tem a consciência de que algo precisa ser feito.
Mas é necessário que para além dos estudantes da Universidade de São Paulo, para além d@s militantes do movimento estudantil, a sociedade em sua amplitude, esteja consciente do que é preconceito e principalmente de como combatê-lo.
Comunicação legítima, sem as máscaras da mídia capitalista desse país, já me parece um grande avanço.
Enquanto não transformarmos essa cultura de violência sustentada na mentalidade retrógrada oriunda da Ditadura numa cultura de diálogo, onde o policial não seja reconhecido como um agente de propagação de violência e sim como um agente de dissuasão dela, viveremos estes tristes momentos. Mas não cessaremos, assim como os que vieram antes de nós não cessaram. Como Thiago de Mello diria, “os que virão serão povo, e saber serão lutando”.
Enquanto isso, se um policial militar em São Paulo te perguntar qual a cor da bota dele, responda vermelho: Vermelho do seu sangue. Se ele perguntar a cor de sua pele, responda roxo: Roxo hematoma. Só por comodidade… E não por conformidade, certo?!
¹ Bárbara Vasconcelos é estudante de Comunicação Social da FMNassau e Coordenadora Administrativa do DACOM da FMNassau em Recife / PE;
² João Jales é Diretor de Direitos Humanos da UNE e Direção da Juventude do PT em João Pessoa / PB.

