Fazenda foi ocupada em 27 de fevereiro
Pelo menos nove pessoas ficaram feridas num grave confronto entre integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e seguranças armados da Fazenda Espírito Santo, em Eldorado do Carajás, no Pará. Entre os feridos, há oito sem-terra e um segurança. Há pelo menos dois feridos em estado grave.
A fazenda pertence à Agropecuária Santa Bárbara, que tem como um dos sócios o banqueiro Daniel Dantas, dono do Opportunity. ” Foi uma armadilha. Quando os trabalhadores chegaram, foram humilhados. Fizeram eles cheirar grama, cheirar botas ” Eldorado do Carajás é o município onde ocorreu a chacina de 19 sem-terra, em abril de 1996. Ontem à noite, o clima ainda era muito tenso na fazenda. A sede da propriedade estava cercada por dezenas de sem-terra e, lá dentro, estavam refugiados empregados da fazenda e quatro jornalistas, entre eles o repórter Vitor Aor, da TV Liberal, afiliada da Rede Globo no Pará, e repórteres da Rede Bandeirantes e da Rede TV.
As versões sobre o confronto são diferentes. A Santa Bárbara diz que os sem-terra tentaram depredar a sede da fazenda, e os seguranças reagiram. O MST diz que os seguranças contratados pela fazenda sequestraram um dos sem-terra enquanto eles estavam na mata da fazenda procurando palha para montar os barracos. Os sem-terra teriam tentado resgatar o companheiro, dando início ao conflito.
A fazenda foi ocupada em 27 de fevereiro passado por 200 famílias do MST. Segundo o movimento, um sem-terra identificado como Euclides, de cerca de 55 anos, foi o ferido mais grave, com dois tiros na boca, um na perna e um na barriga. Mas a Agropecuária Santa Bárbara informou que um segurança foi atingido com um tiro no olho e teve de ser socorrido de avião para Marabá. As duas partes reclamaram que a polícia ainda não havia chegado à fazenda, embora chamada muitas horas antes.
O secretário-executivo do Ministério da Justiça, Luiz Paulo Barreto, telefonou para a governadora do Pará, Ana Júlia Carepa, do PT, oferecendo a ajuda da Força Nacional de Segurança Pública. A governadora disse que determinara o reforço da polícia do estado em Eldorado do Carajás e que, por enquanto, não há necessidade de socorro federal.
Segundo a coordenadora do MST em Marabá, Maria Raimunda Cesar, os seguranças da Escolta Armada, empresa contratada pelo grupo de Dantas, teriam se juntado a um grupo de pistoleiros, e quem estaria no comando seria um pistoleiro conhecido como Diva do Gogó da Onça. O MST negou que os sem-terra estivessem com armas de fogo. Segundo outros dirigentes, a fazenda teria cedido o uso de um caminhão para que os trabalhadores pegassem palha e madeira na mata.
- Foi uma armadilha. Quando os trabalhadores chegaram, foram humilhados. Fizeram eles cheirar grama, cheirar botas – disse o coordenador do MST no Pará, Charles Trocate. – Eles fizeram dois sem-terra reféns. Por volta das 16h, um grupo de sem-terra entrou de novo na mata para resgatar os dois supostos reféns. – Estão dizendo que fomos nós que iniciamos o conflito. Então, por que tem nove feridos e nenhum do lado deles ou só um, como eles estão dizendo? – disse Trocate.

